quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Camisa Dourada

Vi uma camisa dourada
na loja dependurada
amei tanto que comprei a danada

O vendedor queria ela, mas não tinha como cuidar
camisa dourada é fácil de pintar manchada
Mesmo assim comprei
Mas não tirava ela um segundo, nunca deixava de usar

Ahhh, como passeava com a bela dourada, botão azul cor do céu
Desfilava com ela prá todo lado orgulhosa
e ela balançando mangas ao léu
me deixava presunçosa

Comecei a enjoar, mas tinha carinho por ela
Via defeito onde não tinha, mas deixava claro que não a tirava
falava " tu é muito bela doradinha, será que será sempre minha?"
Ciúme lascado da camisa
Vê se isso precisa?

Tava sempre lá quando eu precisava
Um dia falei que a amava,
 e ela quieta a me cobrir e me esquentar
e me deixar mais bonita
nada  falava

Fique bravia, onde já se via?!?
Saí com ela de dia, veio passarinho e lascou bombardeio
Acertou a camisa dourada, manchando ela em cheio

Veio um gordinho brancão suado
 me acudir enquanto chorava
Falou que tinha outras camisas na loja dele, longe que era
mas quando eu vi,
triste que estava,
 para lá ele me empurrava
Tudo camisa diferente,
nenhuma dourada
Escolhi uma outra
fui logo em frente

Tirei a camisa dourada e deixei ela de lado,
dei para aquele outro vendedor
Contente que ficou cuidou dela e tratou de vestir,
 mesmo manchada e com algum fedor
como ao cheiro resistir?
Era o jeito dele dizer que a adorava

Fui embora e vesti uma camisa de gola careca, parecendo meio velha
Era confortável e no dia frio me esquentava
Mas sabe de uma coisa
a pobre coitada não brilhava
Vi que tinha comprado uma coisa logo por necessidade
Lasquei ela, usei e no fim tive que devolver a pobre coitada

Troquei por outras camisas
muitas mais bonitas que a dourada
outras maiores
outras justas
mas hora era o tecido que me coçava
outro tempo era uma manga
que rasgava

A loja do gordinho branco e suado fechou
talvez por que ele vendia muito coisa ruim
talvez por que nunca cobrou
não sei
só sei que faliu
quem sabe do que eu falei
é por que viu

Voltei para minha velha loja
Tava lá o vendedor
Vestindo a bonitona da dourada
Reformada
parecendo novinha
Só que desconjuntada
naquela figura mirradinha do cara da venda
Mas eu sem camisa, podes crer , com um pano velho vestida
pois nada me servia mais, me entenda, desgostosa da vida
Fui lá pedir perdão e um velho farrapo
Para me aquecer agora
ele falou que tinha uns panos velhos para por fora
e já era hora
agradeci, passei a mão no seu ombro
sentindo a leve maciez da dourada

Voltou do estoque com um embrulho
Sabia que era algum bagulho, mas servia qualquer estopa
Sai cabeça baixa, lágrima rolando o nariz
mas eis que me tornei feliz
abri o pacote e lá estava a dourada escondida
Gritei
Que alegria, minha vida!
Acariciei e enquanto vestia ela com ternura
O pano de ouro roçando no meu ouvido
parecia estar dizendo algo
 e dessa vez
eu prestando atenção
escutei
Te amo!

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