sexta-feira, 21 de agosto de 2009

A Lenda renovada

Quem conhece a Lenda do menino holandês que salvou sua cidade ao colocar seu dedo em um buraco em um dique que estava prestes a romper? Bem, essa é uma derivação, digamos uma sequência possível.
Spaarndam agora era uma cidade bem diferente daquela que o garoto de oito anos tinha salvo de ser arrasada pelo rompimento do dique. Sua atividade principal continuava sendo o plantio de tulipas, mas agora o dique que servia de abastecimento de água para irrigação e suprimento da pequena cidade havia sido reforçado.
A prefeitura da cidade havia distribuído em vários terrenos, com a concordância dos cultivadores e moradores, vários muros de 3 a 4 metros de altura, com comprimentos diversos, de largura superior a 5 metros e feitos da mais sólida pedra. A intenção principal era conter e desviar água e lama que porventura viessem de um improvável rompimento do famoso dique.

É nesse ponto que retorna a história o pequeno menino, agora com seus 40 e poucos anos. Virara um dos responsáveis pela manutenção destes muros, pois sua fama o precedia. Sempre incansável percorria cada um dos muros, distantes entre si algumas centenas de metros,as vezes até quilômetro e meio havia de distância entre um e outro, quando mais distantes da pequena represa. Anos se passaram e foi se tornando visível que a modernidade havia contido a fúria da água represada. Os trabalhadores que mantinham os muros de contenção foram realocados para outras tarefas. Menos o nosso protagonista da história que se manteve irredutível.

A Prefeitura ante a teimosia do antigo herói não teve outra saída senão despedi-lo. Mas ainda assim, em um ato incompreendido ele mantera suas funções, trabalhando aqui e ali por um prato de comida, quando fazia a manutenção das muradas.Tinha sua vida particular, família e outras atividades, mas sempre, na mesma época, era comum vê-lo vagar pelos caminhos que percorria, a manter a sua antiga função. Toda semana passava ele, então, na frente da minha casa, e pedia o mesmo prato de comida, pegava suas ferramentas e arrumava uma pedra aqui ou acolá, aconselhava-me sobre como manter a disposição da minha casa quanto ao muro para obter maior proteção.

Anos se passaram assim e aquilo foi crescendo como uma situação de incômodo para mim, pois a insistência do agora já senhor era imutável. Irritava mesmo aquela força de vontade, aquela obstinação por manter aquelas velhas pilhas de pedras em bom estado. Quando vi ele conversando com minha filha de 7 anos sobre o mesmo assunto achei ridícula a situação. Conversei com outros moradores e agricultores da região e começamos a fazer planos para derrubada das muradas. Isso aumentaria inclusive nossa área de plantio. Ainda assim o agora ancião outrora ídolo da cidade procurava junto a prefeitura interromper os processos de demolição dos muros e, vejam quanto abuso, aparecia sempre a frente das casas se oferecendo para fazer a manutenção.

Começamos a lhe negar a conversa e findamos negando até mesmo o prato de comida e o infeliz insistia em vir manter a murada em frente da minha casa. Que despropósito. Comecei a soltar os cachorros durante o dia em que sabia que ele aparecia, mas no dia seguinte estava ele lá. Ameacei-o várias vezes para ver se o espantava e nada. Estava eu mesmo prestes a derrubar o muro quando a estação das chuvas se iniciou.

Choveram dias a fio e uma bela manhã o sol pespontou no horizonte, sobrando algumas nuvens negras para o lado do dique. Minha filha brincava junto a maldita murada quando senti um tremor seguido de um rugido alto e medonho. Aquilo me apertou o coração. Saí na varanda de casa e minhas pernas desfaleceram. Vi próximo a casa uma enxurrada desenfreada vindo, arrebentando o que encontrava pela frente,... o dique rompera! Agora o demônio contido ali estava arrastando a tudo... e minha filha ali ao lado do muro...corri em sua direção mas á agua e lama chegaram antes... O muro imponente e impassível desviava valentemente tudo o que a enchente lhe arremessava, me dando tempo de socorrê-la e nos refugiar em casa. Como toda a tempestade, o terror e o nível da enchente começaram a baixar.

Dias depois fomos a sede da prefeitura ver o que faríamos com os prejuízos. Procurei o velho ancião esperançoso de poder me redimir e agradecê-lo, quando veio a notícia solene do prefeito, em alta voz, da sua morte, enquanto estava ele a arrumar um muro há algumas milhas de minha propriedade. Não foi feito um minuto de silêncio. Houve um emudecer nas almas das pessoas presentes por muitos e muitos instantes. O prefeito com a voz embargada começou a ler uma carta do velho e renovado herói, que salvara mais uma vez a cidade e orientara que se algo um dia lhe acontecesse este papel chegasse as nossas mãos. Sorrimos por que a cada frase lida reconhecíamos as orientações dadas pelo ancião, metódicamente e insistentemente, de como manter as muradas que nos protegiam, da orientação da cosntrução das casas e plantações e ao fim de todo o texto apenas uma singela frase.
" Obrigado Deus por ter podido ser útil"
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Hoje, a cada determinado tempo, a cidade se reúne em mutirão, faz vários pratos de comida e alegremente cantamos e arrumamos as muradas de cada casa e plantação da região, insistentemente como deveríamos ser sempre, com aquilo que acreditamos, buscando o bem daqueles que amamos...

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